Reticências

Relação.

Tem muita coisa acontecendo na vida de todo mundo. Queria poder me colocar como só mais uma pessoa que passa por coisas que mais um monte passam. Desde ontem tô um pouco fixada na história, fixada em como a história aconteceu, tentando fazer autópsia, coisa que já ouvi uma porção de vezes que a gente nunca deveria fazer. A autópsia nunca leva a nada, nunca... nada. É somente um desgaste absurdo em cima de algo que não tem mais como se configurar por outros aspectos. Foi.

Hoje eu liguei pra uma amiga e contemplei impermanência. Eu tenho contemplado impermanência, tenho tanto, que pensei até que eu estivesse com alguma doença em estado terminal e tava morrendo e meu tempo tava acabando e eu não ia viver o que me é permitido viver e a liberdade e e e e e e e.

Infelizmente, a forma como a gente contempla é que dita o que vai tá por trás da nossa mente. Havendo apego, autocentramento, falta de compaixão, alegria empática inexistente, enfim, tudo o que torna nossa visão fosca e não deixa que tudo o que é visto seja integrado de fato.

Minhas relações sempre foram situações as quais eu sempre despendi muita energia, sempre me doei demais, sempre trouxe um peso dramático enorme, sempre o apego absurdo, sempre o não soltar da história. Quando eu comecei a fazer terapia, comecei a perceber que de alguma forma isso fazia parte da minha personalidade negada. Ou seja, eu sou, mas não quero ser. Tudo parece muito simples quando falado, tudo parece muito ameno quando dito, tudo parece. Parecer sem ser.

Essa energia despendida sempre foi uma energia que era necessária pra mim, na verdade, eu sempre doei uma energia que eu precisava ter pra mim e nesse déficit das relações sempre o sofrimento, porque não tem outra fórmula quando essas coisas acontecem. Esquecer coisas, trazer coisas, lembrar coisas, viver coisas, trocar coisas, energia. O encaixe sempre quis ser, mas nunca pareceu.

É tempo, mas tempo de quê? Tempo de contemplar o quê? Tempo de soltar o quê? O sol tá em sagitário, queria a liberdade me gritasse um pouco mais alto, mas eu só ouço sussurros, sussurros de qualquer coisa.

Experienciar coisas tem sido uma dor e uma delícia, eu ainda tenho tentado não tentar ser, mas continua difícil não parecer. Quando os momentos de ser surgem, não surgem como sendo, surgem como parecer e aí eu pareço entender, mas só pareço mesmo, porque no momento seguinte eu já me encontro tentando ser não sendo.

Tem aspectos das relações que te mostram somente coisas que tu és, coisas que tão enterradas em algum lugar, mas que surgem em relação, só que como surgem e da que forma a gente acessa que é o rolê. A vida tá o tempo tempo girando e a gente tentando parecer ser não sendo e girando a gente parecendo e virando de cabeça pra baixo e a gente dizendo que tá entendendo. Até quando?

Tudo surge em relação.

Já tem um tempo que eu li isso, mas até hoje não entendi isso. Sempre que surge, um baque, sempre depois do baque, o surgimento e assim continua. O que foi, como foi, quando foi, com quem, o que será, não importam muito, já não existe mais, já não vive mais, já não respira.

Quando se pensa que é, não é, quando se acha que parece, nada a ver, quando se quer, outra coisa é conquistada. A eterna roda da vida e a eterna vontade do controle diante de tudo que não precisa de controle pra somente ser. Soltar. É tão difícil soltar, deixar pra lá, seguir sem se identificar, abençoar, agradecer, seguir sem se identificar, amar, se alegrar, contemplar, seguir sem se identificar.

Relações.

É quando no outro eu vejo aquilo que existe em mim, é quando no outro eu amo aquilo que não abraço em mim, é quando é muito difícil viver sem se perceber, difícil olhar e não se enxergar, é quase como se tu achasse que tá se abandonando, é parte, mas também não é. Quando eu relaciono, eu vejo no outro tudo aquilo que eu mesma sou, eu sou o que o outro é, eu sou, mas eu só fico parecendo.

Espero que um dia eu possa, junto com outros, ser antes de parecer e parecer o mínimo possível porque somente ser é o que é. Um dia quem sabe eu possa tomar uma água de coco debaixo do sol escaldante e dizer que "tá tudo bem" sem que isso tenha um peso que eu não possa carregar. Um dia. Um dia quem sabe...

No fundo eu sei o peso de ser, no fundo é foda essa peso, só que é no fundo que a gente é.

A história não acaba, ela segue, só que seguir não tem nada a ver com seguir da forma que você quer que ela siga, seguir é muito mais do que passar, seguir não é parecer, seguir é e ela segue. A história não termina, ela faz parte e como toda parte ela é.

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