O Poço

Já tem um tempo que isso tá me assombrando. Essa responsabilidade que parece pesar uma tonelada e que eu sei que é a mesma responsabilidade que tanta gente tem que arcar, mas que eu, eu não tô dando conta. Tudo o que me vem, me vem pela sombra disso e do que eu preciso fazer com isso e eu não consigo (ou me impeço) de dar mais um passo pra que isso acabe de uma vez por todas e eu possa finalmente respirar livre, respirar sem sentir esse peso que me empurra pra baixo.

Eu já cansei de duvidar da minha capacidade em lidar com essa questão em si e com as outras que estão aglutinadas a ela, mas é isso, eu continuo no mesmo lugar, eu tô num poço, num poço sem água, não tô me afogando, não me escapa o ar, mas me angustia olhar pros lados e não conseguir visualizar uma saída. Parece muito alto, não vejo um atalho pra encaixar os pés e tentar escalar, não tem nada que possa servir de apoio, tá tudo escuro, eu só consigo ver a brechinha de luz que entra através da superfície do poço, a parte que alguém deve ter esquecido aberta. Estar presa e não ter a quem pedir ajuda, porque gritar aqui embaixo é em vão, sabe-se lá se uma alma viva vai estar passando lá em cima a vai poder me acudir, vai poder me tirar desse buraco.

Por um momento eu pensei sentir uma corda atrás de mim na parede do poço, mas não sei. É confuso estar num local redondo. Não tem arestas, não tem referência de espaço, tudo é a mesma coisa, todo lugar que eu encosto é a mesma coisa, eu já não sei mais o que é o quê. Não consigo sentar, não dá pra sentar, é estreito demais e eu sou gorda demais, não me cabe e ainda assim permaneço. Tenho que ficar em pé, em pé o tempo todo, não consigo dormir, não dá pra dormir em pé, eu pendo quando cochilo e tenho medo de cair e me machucar. Esse lugar é um inferno, eu não consigo me ver, eu não consigo ver nada, eu só existo até não existir mais, até que em algum momento vai me faltar água e comida, até que eu possa colapsar por todas as necessidades que o meu corpo exige e pelas quais eu não consigo suprir. Não posso dormir, não posso comer, não posso beber, não posso viver, somente existir.

Sabe essa corda que parece existir aqui? Eu tenho medo que de alguma forma seja uma armadilha, que esteja frouxa lá em cima onde quer que esteja se segurando, tenho medo que meu peso não a suporte, tenho medo que por um momento ela até consiga me aguentar, mas e se na metade ela se romper? A queda dentro desse poço não parece das mais agradáveis, temo que se eu cair na metade, posso bater a cabeça, posso me machucar gravemente e não vou ter quem posso me socorrer. Eu sei, de uma forma ou de outra a morte tá me esperando nesse poço, porque em algum momento a falta vai caber e vai ser maior que eu, mas a falta chegar é ok, ficar sofrendo enquanto minha cabeça sangra num poço escuro e sujo, não é tão ok assim. Eu preciso arriscar de alguma forma já que definhar é a outra opção que cabe aqui dentro, eu sei, eu acabei de hesitar, mas talvez caiba uma tentativa, talvez eu posso puxar forte a corda e perceber se é segura antes de me dependurar. Ainda estou estudando as opções que me chegam, mas não consigo decidir habilmente.

O tempo tá acabando e isso me faz ficar fodidamente ansiosa. Eu preciso arriscar a corda, mas eu já não sei se consigo tocá-la.

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