Qualquer Coisa
Soltar.
Quando eu acabei aquela mensagem dizendo que não somos histórias isoladas, mas sim uma vida cheia de histórias, eu sei o que eu quis dizer, embora não seja isso que esteja acontecendo no último mês.
Talvez eu nunca tenha sentido tanto com o "adeus" de alguém, talvez isso não tenha acontecido desde que Guilherme surgiu na minha vida, talvez eu esteja exagerando também, talvez muitas coisas. Não tô conseguindo soltar a história ancorada pela ilusão que outra pessoa me incutiu porque parece muito que se por um lampejo ela fosse verdade, ela seria a história mais bonita de ser contada a todo e qualquer ser humano.
É isso o que acontece quando tu se apaixona, é o que acontece quando tu condiciona tua energia ao outro e passa a respirar conforme ele permite e isso tudo dói, sim, dói fisicamente. Talvez a pior parte seja a dor física, mas a emocional, a dor emocional que me faz chorar quase todos os dias também é muito insuportável mesmo que já tenha se passado um mês.
As músicas me lembram, os livros me lembram, meu óculos me lembra, quando eu fumo me lembra, a casa de Léo me lembra, a rede me lembra, o sofá me lembra, amendoim me lembra, Elis me lembra, a praça me lembra, a coxinha de batata me lembra, o olhar me lembra, o beijo me lembra, as mãos me lembram e parece que tudo me faz rememorar e toda vez que eu volto, eu me perco na dor e por mais que isso parece masoquista, não é, é somente a forma que eu tô consegindo lidar com isso agora e sim, eu sei da culpa que eu tenho sobre tudo isso e não me isento dela, mas nada faz a dor diminiur, muito pelo contrário, parece agora que tudo faz doer porque foi tudo construído como um castelo de areia que qualquer onda faz desmanchar. Ilusão.
Relutei muito pra entender que era eu, relutei pra entender a ilusão que aconteceu, relutei muito em aceitar que eu nunca fui sequer um pensamento puro de possibilidade de felicidade, eu relutei porque antes o sonho me dizia que era a mais pura realidade, mas não passou disso, não passou de um sonho.
É tão estranho perceber a vacuidade disso tudo, de como um sonho pôde se transformar num pesadelo horrível e como isso me dilacera todos os dias quando eu acordo e percebo que é somente um pesadelo e que eu pareço nunca acordar. Há um mês eu não acordo do pesadelo, há um mês eu revivo o pesadelo todos os dias independente de onde eu esteja ou com quem eu esteja, o pesadelo tá ali do meu lado rondando igual um abutre.
Tô cansada disso ser o assunto da minha terapia há mais de um mês, sabendo que esse tempo poderia muito bem ser utilizado com outras questões. Na última sessão, eu chorei na chamada com Sidney e o quanto eu tenho chorado na frente dos outros só me mostra o quão fragilizada eu estou e o quão isso tá me afetando negativamente. Dispus todas as minhas energias sobre isso, entreguei tudo o que eu podia entregar, doei o que eu achava que deveria doar, mas até agora somente a dor.
Colocando na balança, já tem um tempo que o lado ruim disso tem pesado infinitamente mais do que a parte boa que foi só uma ilusão e não, eu não sei porquê ainda continuo ansiando o que não deveria ansiar, rememorando o que não deveria rememorar e somente me machucando com tudo o que surge.
Ele não lembra, não lembra de tudo o que me foi dito e de como isso me afetou e de como me afetaria depois. Ele sabe sim, mas ele não se importa, ele não se importou e talvez ele revire os olhos ao receber uma mensagem inesperada. O castelo de areia ruiu mais rápido do que tava nos meus planos e isso me tem me machucado de um jeito que nunca me machucou antes e eu queria muito abençoar isso, eu juro que queria, mas não consigo. Não dá pra abençoar tanto sofrimento, não consigo pacificar tamanha dor, não consigo aceitar a falta de qualquer coisa que ele teve comigo. Sim, eu poderia somente seguir e pacificar esse karma sim, mas me desculpem, agora eu não posso, agora eu não consigo. Acho que não seja possível sentir tudo o que eu senti e dizer que tá tudo bem depois de ser descartada como quem descarta qualquer coisa que não tem mais serventia.
Não é raiva que eu sinto. Talvez eu tenha sentido na primeira semana, mas tudo o que eu sinto é mágoa mesmo e decepção por mais uma vez ter me permitido cair no mesmo buraco. Culpa. Talvez culpa seja muito mais um sentimento atual do que qualquer outra coisa, porque parte de mim acredita que eu poderia ter resistido mais, duvidado mais, não ter me entregue tão facilmente, não ter, somente não.
Eu e minha mania de achar que enxergo as pessoas, que conheço elas, que consigo perceber a parte boa que as cabe sem um contato mais denso, sem que eu possa constatar isso por qualquer outra fonte que não minha mera intuição.
Quando eu escrevi o último texto, eu não sabia tudo o que viria acontecer, mas parece que tava prevendo mesmo e agora tô aqui sentindo como se conexão fosse uma mentira, como se tudo o que eu senti não fosse nem de longe uma verdade, mesmo que somente uma verdade minha. Acabou e eu sei que nunca mais vou me permitir dessa forma e que nada mais vai me fazer acreditar e nunca mais vou conseguir me entregar. A entrega acabou em tu, foi o meu máximo, foi o meu melhor e tu tivesse e agora nem eu vou ter mais, porque tu ficou com tudo, tu ficou com tudo, Alyson e eu não quero de volta de forma alguma.
Pensei que depois daquela caminhada na praia, pensei que depois de escutar os áudios de Thay, pensei que depois de gerar lucidez, pensei que querendo tua felicidade, pensei que lendo, pensei que vendo leituras de tarot, pensei pensando o tempo todo e nada me fez sair dos pensamentos e isso tá me torturando muito mais do que eu queria. Nada ainda me fez largar a história e seguir e me desculpa, mas eu te culpo sim, eu te culpo por toda e qualquer palavra que você tenha me escrito, eu te culpo por cada olhar, por cada beijo, por cada carinho, por toda e qualquer coisa que me disse "tá tudo bem, eu tô sentindo também". Me desculpa, Alyson, eu não te odeio não, mas sim, eu te culpo e eu te culpo principalmente por não poder ser mais quem eu sou e por não poder mais mostrar esse lado bonito que eu tenho porque tu esmagou nas tuas mãos e soprou o pó que ficou entre os dedos. Você nunca esteve alheio, você sabia dos detalhes, te fiz olhar as notas de rodapé, mas tu ignorou todos os sinais de fumaça e pensou... Não sei o que você pensou, não quero me ocupar hipotetizando isso, mas foi o que foi e agora eu tô pagando a conta com juros que não tenho como pagar e vou precisar parcelar por sei lá quanto tempo. Sim, já disse antes, é claro que minha culpa tá imbuída aqui também, mas minha entrega foi culpa sua e eu sei que no fundo você sabe disso.
Apaguei a conversa, apaguei os prints que tinham no Twitter, apaguei os áudios nas conversas dos meus amigos, apaguei os prints nas conversas dos meus amigos também, parei de olhar teus stories, exclui teu número que tá decorado, assisti às palestras de Gustavo e Márcia Baja... Acho que o que tava ao meu alcance pra te deixar ir, eu fiz, mas não adianta. Não adianta quando tua voz pode ser reproduzida na minha cabeça sem que eu precise dar play em nenhum áudio, quando tuas palavras tão gravadas quase que dentro do meu coração, quando eu agendo teu número e abro a conversa no Whatsapp só pra sentir que poderíamos nos falar mais uma vez, quando o frio na barriga me faz perceber que tua imagem ainda mexe muito comigo, quando a ânsia me invade, quando as lágrimas caem pelo meu rosto, quando me emociono lembrando da parte bonita que foi e que poderia ter sido, quando qualquer coisa, Alyson.
Parece que eu tô escrevendo isso pra tu, eu sei, mas eu tô tentando tirar de dentro de mim pra poder seguir, eu tô tentando seguir do jeito que eu posso e se escrever é uma forma de seguir, vai ser assim então. Sim, eu sei, uma hora para de doer, a gente levanta da cama e lembra das obrigações do cotidiano, do livro que tá lendo e precisa acabar, da série nova que comecou a ver há uma semana, das relações que carrega na vida, dos lugares que ainda quer ir, dos laços que ainda tem pra nascer.
Só que mais uma vez, enquanto não passa, eu tô sentindo e eu tô sentindo muito e tudo o que eu queria era não sentir tanto assim.
Uma vez você me disse que já passou por algo que pensou que não acabaria e acabou e a vida segue e eu te disse o quanto seria doloroso ouvir isso do outro e eu tinha quase certeza que seria eu a ouvir isso de você. Tu não verbalizou da mesma forma, mas foi tudo o que passou a me dizer desde a quarta-feira fatídica. Sabe o que é, Alyson? Eu passei muitos anos pra conseguir seguir sem que Guilherme ainda vivesse nos meus pensamentos e eu morro de medo que tu seja tal qual Guilherme ou pior, considerando que nós ainda fomos pra realidade e pude te sentir e te tocar como quem sente e toca uma coisa rara, como quem vive como se não fosse viver de novo. Eu me apaixonei genuinamente por tu, Alyson e não, eu não deveria me apaixonar e você sabia disso e eu sabia disso e você me perguntou se tava tudo bem e eu disse que nada tinha mudado e quando eu te perguntei se tava tudo bem, você me disse qualquer coisa, Alyson e isso dói pra caralho, isso tem me doido tanto e eu não faço ideia se você sabe ou se importa com essa dor e mesmo que saiba ou se importe, nada vai mudar né? Nada pode mudar o que já aconteceu, nada pode mudar toda a dor que eu tô sentindo e já senti.
Enquanto eu escrevia, caiu água no mousepad e eu precisei reiniciar o notebook. Acabei me perdendo na torrente de sentimentos que estavam cabendo nesse texto, mas já ficou mais longo do que eu tava esperando, então vou acabar aqui ouvindo "Caleidoscópio" do Paralamas do Sucesso e almejando voltar a ouvir as músicas que batizei em tu, só que finalemente sentindo respirar livre.
Um abraço apertado, Alyson. Adeus.
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