Ah, o mar!

Começou estranho, começou parecendo quase como um sonho.
Tentei me enganar como quem tenta acreditar que cobre é ouro.

Coloquei todas as minhas cartas na mesa, falei todas as possíveis jogadas, eu fui tão límpida e clara quanto o oceano pacífico mesmo que o meu íntimo dissesse que não, que aquilo era só mais um jogo com integrantes diferentes.
Eu quis mesmo, eu quis acreditar numa falsa ilusão composta por palavras bonitas e uns gestos de quem parece querer jogar o jogo de forma limpa. Ledo engano.

Quando percebi, já não estava mais ali, quando dei por mim, tinha mergulhado num mar revolto, quando vi, estava me afogando em mar aberto e quanto mais eu tentava gritar por socorro, mais eu engolia água.
Esse é o preço que se paga por se jogar num revolto, o preço que se paga por sequer estar com um colete salva-vidas.
O mais irônico é que o colete me foi entregue em mãos, eu segurei, eu senti e não quis vestir. É impossível querer que a natureza aja contra a sua natureza.
O mar é o mar e é claro que o mar pode estar calmo quando a maré tá baixa, mas a gente sabe como o mar funciona quando vemos uma tsunami.
O mar não deixa de ser o mar, ele nunca deixa de ser o mar e todo mundo sabe que quanto mais se mergulha, mais difícil fica de voltar à superfície.
Quando um tsunami passa por um lugar, praticamente tudo precisa ser reconstruído do começo. Cada tijolinho precisa ser posto de volta no lugar. As casas perdem a configuração de casas, elas passam a ser um amontoado de concreto inútil, sem nenhuma serventia.
Se eu pudesse dizer só uma coisa, eu diria: "não mergulhe no mar revolto, você pode se afogar ainda que esteja de colete, ainda que saiba nadar, o mar é o mar e sempre vai ser".

Era noite e de noite tudo parece muito mais perigoso, inclusive o mar. Fui andando como quem acredita no mar como um melhor amigo, ou melhor, como quem acredita no mar como um afago, daqueles afagos que te surgem no peito e se espalham pelo corpo todo. Fui caminhando na areia, fui sentindo o mar primeiro nos pés, fui tocando o mar devagar embora por dentro eu estivesse querendo me jogar como quem tem sede num dia ensolarado. Mas era noite, tava escuro, a lua refletia o brilho do sol, mas tava tímida e era quase como se a lua tivesse me dizendo que não, que eu não entrasse, que era noite, que tava escuro, que o perigo tava iminente. Eu que já nadei em águas escuras tantas vezes, pensei não ter mal algum, já que sempre saí ilesa daqueles nados noturnos. 

Mas não, tinham muitas coisas me dizendo que não, muitas coisas gritando que não, muitas coisas surgindo do não, muitas coisas, quase como coisas. Não dei atenção, entrei, senti a água gentilmente passar pelo meu corpo no mesmo afago que antes já experienciei. Dancei no mar, sorri, parecia estar em casa, parecia que ali era o momento exato da entrega. Eu me joguei, submergi, sorri embaixo d'água, dei cambalhotas e quando o oxigênio começou faltar, tentei subir, mas já era tarde, eu já tinha ignorado tudo que tinha me dito não. Forcei, tentei o impulso, eu já tava me desesperando, eu tava quase desistindo, quando o mar me cuspiu parecendo Jonas quando cuspido pela baleia. O mar me levou até a areia, não recobrei a consciência de imediato, e depois de abrir os olhos, não consegui me desfazer da água que jazia como cicatriz dentro de mim. Só o excesso, somento o excesso do que eu tinha engolido foi posto pra fora como quem vomita depois de uma noitada regada a álcool.

Olhei pra lua e ela parecia mais reluzente, mas eu não sei se foi a contemplação da experiência de quase morte ou se ela realmente tinha se aberto mais naquela escuridão que antes assolava a praia.

Olhei o mar e ele não parecia ser o mesmo mar que quase me tomou a vida, olhei o mar e parte de mim quis acreditar que foi um sonho, mas eu sabia que não, não há como alucinar um sonho quando se mergulha num mar revolto, não há.

Levantei tal qual alguém que se percebe inapropriada num jantar chique depois de não saber usar os talheres. Parecia mais um cão com o rabo entre as pernas, como quem pede desculpas depois de rasgar todo o sofá.

Eu sabia, no fundo eu já sabia, mas eu sempre tento dizer que um mar revolto é calmo, sempre tentando atenuar os perigos. 

Parte de mim sabe que foi diferente, a experiência de quase morte foi diferente, não foi intencional, não foi totalmente imprudente, ainda que eu soubesse que não se mergulha em mar revolto, eu saí de lá tendo a certeza que jamais mergulharia num mar revolto novamente.

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