Poison

Eu pensei estar obcecada por ti, mas na verdade minha obsessão não vem da matéria, ela é abstrata.

Abstrata como a ideia do que eu pensei que tu pudesses ser, abstrata como as tuas mentiras, abstrata como tua voz e a imagem que eu tenho dela e do que eu projetei sobre ela, mas que no fim é somente mais uma voz. Não existe essa fixação sobre sermos especiais, nós não somos especiais, porque o mundo simplesmente é e a gente tá aqui pra buscar sentido em algo que já tem sentido.

Desde que tive acesso aos ensinamentos budistas, pude perceber com claridade coisas que antes eram somente manchas e que eu pensava poder limpar. Essas manchas não saem com aqueles materiais de limpeza, essas manchas depois de um tempo parecem que fazem parte da gente e é fácil esquecer delas e é fácil não querer mais se livrar delas. 

Ter um problema e reconhecer o problema, não resolve o problema.

As ideias pelas quais a gente se vê fixado, são ideias tão impermanentes, mas a não percepção dessa impermanência acontece porque a gente precisa alimentar a mancha, a gente precisa agir da mesma forma para não acharmos que estamos loucos. Mudar é aprendizado, não é apreender. O significado de tudo muda quando tu olha de novo e vê, não consiste mais em enxergar somente, tu vê e tu queres que aquilo derreta como um sorvete num dia quente de verão, mas é estranho porque não derrete, parece errado porque o certo é derreter e tu te indagas o porquê e a resposta não vem, mas a resposta tá ali: o sorvete não derrete porque ele não existe.

Esse sorvete pode ser qualquer coisa dentro da tua cadeia de pensamentos que te faz acreditar que essa cadeia de pensamentos são ideias. Não são. As ideias não tem uma estética pré-ditada, mas elas tendem a não te colocar numa posição de confusão, porque a ideia da ideia é justamente te tirar da cegueira e da delusão.

Eu sempre falo que se eu pudesse voltar atrás, eu não teria deixado acontecer coisas que aconteceram, mas sinceramente? Eu não sei, talvez eu fizesse tudo de novo, talvez não. Não faz muito sentido que eu me perca em passados, eu sei disso, mas é como eu disse ali em cima, sabe? Só saber disso, não traz a paz que eu preciso, só saber não me faz mudar.

Essas prioridades invertidas, essas realidade paralelas, essas ideias de que "e se". O pressuposto não existe, ele simplesmente é independendo da atribuição de significado, a falta do significado é realmente quando a gente percebe que o significado se perdeu e anda com pernas e não temos mais controle. O significado se torna neologismo e entra dentro de tu que tenta entender, mas não vai, não vai porque já tentou entender antes, não vai porque não tem mais o que entender. 

Se tá posto, pode ser tirado, se é tirado, pode ser posto. Assim que são aparências, assim que elas se derretem.

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