Purgatório

Tinha decidido não falar sobre isso porque não valia a pena. Continua não valendo a pena, mas se eu não tirar isso de dentro de mim, vai ser ainda pior.

O mundo é vasto, a gente sabe disso, a gente também sabe que ninguém vem com manual e todos os clichês possíveis, a gente sabe. Mas mesmo com todos os clichês, continuo fazendo as mesmas coisas que me magoam e é isso que dói. Eu estou procurando o "como", mas tudo o que me vem é somente o "porquê". Todas as minhas tentativas não vão bastar quando eu mesma não me basto. A questão toda é essa: o quanto eu me machuco sozinha, o quanto eu sou responsável pelo meu sofrimento.

Criei uma ilusão como sempre crio. O que me faz bem é tão ínfimo pro quanto que tudo isso me faz mal. Percebo isso quando já é tarde demais, quando o estrago já está feito. As pessoas são iguais mesmo que diferentes, tá todo mundo autocentrado, tá todo mundo preocupado em satisfazer seus próprios prazeres.

Passei a maior parte do tempo falando sobre Guilherme nos textos desse blog e percebo o quanto falar dele só diz muito sobre mim mesma. Perceber isso é a morte. A morte. Hoje Guilherme passou, hoje todos passaram e eu continuei aqui. Continuo sendo a mesma garota de quinze anos que criou uma pessoa nos seus pensamentos, procurou ela e achou que seria assim simples. Nada é simples, mesmo quando a gente tenta simplificar. O sentimento é aterrador, mas saber que ninguém foi responsável por isso, saber que somente eu crio isso tudo é o fim. Sinto-me suja, sinto que eu poderia ser melhor para mim, sinto que eu poderia dispender mais tempo de forma diferente, de forma a procurar saber quem eu sou e melhorar o que não faz com que eu evolua. 

Eu sou hipócrita, a verdade é essa. Eu não quis me colocar no mesmo lugar e isso é torturante. Eu sou uma farsa e eu sei que todo mundo em algum momento da vida já se sentiu assim, mas espero que essas pessoas que se sentiram assim, tenham conseguido evoluir, tenham liberado o que precisava ser liberado. Nem sempre o porquê é adequado, mas o como sempre vai ser relevante.

O mundo acabou. O mundo parou. Eu não sou tão autêntica quanto eu pensava, sou igual a todos e não sei até onde isso é benéfico. Não tenho mais o benefício da dúvida, a dúvida já se foi, agora só ficaram as certezas. Certezas essas que não podem se afirmar completamente, mas que nesse exato momento são tão claras quanto o transparente da água. Eu gostaria de reescrever uma história de 23 anos, mas não posso. Tenho que entender o como até aqui, entender que é um processo, somente entender. Muitas coisas vão perder o significado, mas outros significados surgirão. A vida é um moinho.

Não se pode querer mudar usufruindo das mesmas atitudes. Querer é poder, mas quando não se quer, não se pode. O mundo se abre de novo e amanhã talvez se feche de novo. Eu entendo que não acontece da forma que acontece, tudo depende do meu referencial. Enquanto escrevo, a chuva cai forte lá fora e eu amo a chuva, mas tinha esquecido disso. Sinto como se todos os dias ao invés de me lembrar do que sou e das coisas que aprecio, só tenho esquecido tudo isso. A chuva é tão maravilhosa, sinto vontade de ir lá fora deixar a chuva me lavar, deixar a chuva levar minhas lágrimas pesadas, deixar que eu renasça, não das cinzas, mas da água, a água que faz com que eu seja eu.

Aqui já são 4 da manhã, os remédios acabaram, a insônia se instalou, a insegurança agora faz morada diária. Quero me sentir viva, mas tem sido difícil viver no meio da morte. Eu sei que não estou totalmente morta nem totalmente viva, eu tô literalmente no limbo, no purgatório esperando a sentença final. Tenho sentido como se fosse morrer, mas acho que não é uma morte física, minha alma tá morrendo, minha essência tá evaporando. Não sei o que vai ser daqui por diante, não sei quais serão as novas aspirações, não sei se conseguirei sair do purgatório, mas eu quero perceber o presente como um presente. Já faz tempo que não adianta chorar pelo passado e ansiar pelo futuro, mas a insistência nesses dois tempos me trouxeram aqui hoje. Não sei como contemplar isso, não sei o quão benéfico pode ser, mas eu quero, se é o ditado é certo mesmo, então eu posso.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O Poço

Não Pode Ter Emoção