Remember Me

Clarice se perdia em pensamentos quando chovia. Ela fazia da nostalgia sua morada, só que essa nostalgia costumava ser aterradora. Reviver o que não se deve reviver, costuma ser torturante e ela era masoquista.
Eu sempre observei Clarice, mas nunca cheguei a uma conclusão plausível do porquê sempre torturar-se com lembranças tão tristes e ela às vezes me explicava que isso era uma forma de lembrar que ela estava viva, porque se doía, era porque sentia e se sentia, era porque vivia.
Casualmente falava que tomar banho de chuva fazia com que ela visse ao longe uma imagem que ela gostava de ver. Essa imagem nunca foi vista por mim e ela nunca fez muita questão de me descrever. Clarice era doce, ingênua e indolente. Sua vida era pautada em lembranças, ela vivia os passados e por sempre vivê-los, esses passados eram sempre presente e futuros.
Lembro que uma vez ela tentou de todas as formas divergir daquilo que era acostumada, mas foi uma fracasso.

Era noite, a chuva que ela tanto gostava caia torrencialmente e ela num pensamento nada reflexivo decidiu ir caminhar estrada a fora.
Clarice chorava e já não sabia identificar o que seriam suas lágrimas e o que seria chuva. Ela estava sem rumo e essa falta de direção a fez pensar que andar literalmente no meio da estrada não seria tão perigoso quanto ela era a si mesma.
Aquele farol que vinha ao longe, aquela era a imagem que Clarice sempre via fantasiosamente e que a fazia pensar que tudo acabaria no instante em que a luz a alcançasse. Ela não sabia mais o que era verdade e o que era imaginação e continuou andando em direção ao seu fim e quando aquele farol alcançou seus olhos, Clarice pôde viver nas eternas lembranças tristes e parte dela sabia que isso a faria melhor.
Ela fechou os olhos e a sua imaginação passou a ser verdade.
Ainda consigo lembrar do sorriso que esboçou quando fez o seu último movimento e partiu para seu futuro passado.

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