A Filha do Vento
Desculpa-me por não poder ser o que possa te felicitar.
Eu não sou o que almejo ser para mim, como posso ser para ti?
Não consigo ser antes de ser de verdade.
Quando primeiramente eu for, serei.
Eu me culpo pelas minhas adversidades, assim como alguém que se culpa por saber tomar as decisões corretas e toma as erradas.
Enquanto tu vens ao meu encontro, eu me afasto.
Não me sinto preparada para a dedicação que se faz necessária e que é essencial para o outro num relacionamento. Talvez quando eu me perceber, me achar, me dedicar, me conhecer o suficiente para conseguir sentir eu mesma, eu deixe tu vires e/ou permanecer por tempo indeterminado, até que uma das partes não consiga mais ser o que tentou ou prometeu ser um dia.
Tu sabes que a culpa vem apenas de mim, tu sabes que eu me sinto incapaz e assim sendo, não quero que tu sintas ou ao menos perceba essa incapacidade.
Os dias são nublados e as noites chuvosas. O meu inverno, o inverso ao qual me adequei.
Enquanto eu não estiver inteira, não poderei me repartir por ti e para ti.
O essencial se perde nas ilusões.
Minha essência é esta e me faz latejar de dor, às vezes eu não tenho certeza se tal dor é prazerosa ou não.
Eu já não sei se o fato de eu me sentir incompleta, incomoda ou conforta o que um dia chamei de essência.
Não me sinto leve o suficiente para me carregar, para me suportar ou deixar levar.
Tantas coisas supérfluas me fazem não aceitar aquilo que eu aparento ser.
As mudanças que já se passaram pela minha cabeça nunca foram postas em prática apenas por eu não me sentir forte o suficiente para torná-las reais e palpáveis. Quero que tu te lembres, que mesmo sendo fraca, eu sempre quis que essa fraqueza ser tornasse força para que eu pudesse ser páreo a ti.
Pessoas fortes merecem pessoas fortes e é por isso que nunca permiti que tu me tiveste. Tu sempre mereceste algo bem melhor do que eu poderia te oferecer a a minha mágoa misturada à minha fraqueza, nunca me deixaram fazer com que eu me permitisse a te permitir.
Amo-te, mas não sei explicar essa forma de amar; não sei nem se tu classificarias como amor, então me deixas mergulhar em meus escapismos em busca desse amor ou desse complemento e fazer como que alguma coisa seja real ou se torne real.
Amor, tu devias desistir da ideia insana sobre tentar me fazer te amar ou tentar encontrar o amor da forma que acreditas ser a real forma.
Já não somos crianças para acusar a ingenuidade e culpá-la por nossas escolhas infantis e prejudiciais. O que eu decido hoje, posso mudar de ideia amanhã, mas não vai fazer com que eu não arque com as consequências da ideia primária.
Teu afago, tua compreensão, tua partilha, tua capacidade em acreditar em mim um dia me darão forças suficientes para que eu me torne aquilo que busco e aquilo que tu precisas.
Ser filha do vento e pensar que as mudanças que nem são tão relevantes assim, sumirão com a brisa que passa.
Os meus escapismos acentuam-se cada vez mais todos os dias e eu não tenho uma forma de controle sobre isso.
O mundo é mundo e por não ser o meu mundo não é um mundo de verdade.
Eu prometo que tentarei fazer com que isso passe pelo menor caminho e que assim como o vento, leve para longe tudo o que outrora pareceu me completar.
Belíssimo e profundo texto. Ser filha do vento, por vezes, é uma dádiva por poder se adaptar as mudanças e não permanecer em um conformismo. Nos adaptamos ao mundo, mas o mundo também se adapta a nós.
ResponderExcluir