Rosa Vermelha
Numa noite dessas, estava eu caminhando numa daquelas praças desertas e mesmo alheia percebi uma mulher, sentada numa das extremidades do local chorando perturbadoramente. Chorava tão alto, que mesmo imersa em pensamentos, fez-me tornar à realidade. Diante mão, fiquei receosa em oferecer-lhe ajuda, pois nunca lidei muito bem com estranhos, na verdade, eu sou muito tímida e mesmo assim cheguei perto dela e perguntei se estava passando mal ou algo semelhante, se eu poderia ajudá-la de alguma forma... Quando ela levantou o rosto para me ver, vi que seu estado era péssimo e devido aos seus trajes, tinha saído de algum lugar festivo; sua maquiagem estava toda borrada e notei que ela carregava uma rosa na mão esquerda. Ela me olhou, não falou nada e voltou a chorar. Deduzi que se tratava de alguma desilusão amorosa e muito provavelmente, daquelas bem desoladoras. Visto que ela nada me falou, sentei ao seu lado e a abracei mesmo que não fosse do seu agrado, pois entendo que às vezes tudo o que precisamos é de um abraço e uma ou duas palavras de conforto. Então passei a falar-lhe:
"Por mais que te doa, saibas que vai passar. E por mais que seja clichê, é verdade. Chora, chora tudo o que tens para chorar, tira de dentro de ti essa mágoa que te afoga, esse mar ao qual te sujeitas. Choras, pois tens esse direito, tu podes mais que tu pensas e sim, podes chorar. Não te envergonhes, não dê ao ouvido ao que as pessoas que por aqui passarem possam vir a te dizer. Chora. Lava tua alma. Livra-te do infortúnio que está te sucumbindo. A vida também é feita de sofrimentos, sofrimentos que teremos que passar, mas não precisamente calados. Chora. Não te conheço, mas posso tentar entender o que estás sentindo e se for do teu agrado, podes desabafar ininterruptamente, porque estarei a te escutar. Se assim não for, então apenas chora e enxerga que o teu sofrimento está indo embora juntamente com as lágrimas que caem. Chora. Ficará tudo bem."
Enquanto eu falava, ela não parava de chorar e continuava com a cabeça baixa, olhando a rosa vermelha em sua mão. Seu choro diminuía o ritmo, mas logo depois retornava incessante. Retomando o que disse anteriormente: "...às vezes tudo o que precisamos é de um abraço e uma ou duas palavras de conforto.", embora eu saiba que minhas duas palavras tenham virado um monólogo. Minhas palavras conseguiram surpreender-me, já que aquilo não era-me habitual. Entretanto, tais palavras proferidas por mim foram particularmente espontâneas. Não sei de onde desenterrei o que falar, elas apenas vieram e saíram de minha boca sem pedir-me permissão.
De fato, eu não sei o que possa ter acontecido àquela mulher, ela não me dirigiu uma palavra, ela apenas chorava. Após um tempo, o qual presumo ter sido pouco mais que uma hora, ela para de chorar e começa a despetalar a linda rosa que lhe causou e ainda causava tanta dor, sussurrando frases inaudíveis. Ao terminar, levantou e se foi. Enquanto eu a olhava tristemente, pedindo no silêncio da noite que sua dor fosse construtiva, ela virou e deu-me um olhar que interpreto como: "Eu sei que vai passar, eu só precisava passar para poder entender que realmente passa."
E lá se vai a desconhecida que nunca mais tornarei a ver, mas que conseguiu me marcar, ainda que ligeiramente.
Uma rosa vermelha despetalada, um coração partido e ao mesmo tempo vazio, lágrimas secas, palavras gritantes, outras silenciosas e é assim que tudo termina, é assim que tudo passa.
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