Meu Número 6, Minha Exceção
As imagens
que se passam na minha cabeça são desconexas e aterradoras. Vejo cores, várias
cores bruxuleantes nos refletindo na plateia, que no momento se encontra vazia,
embora nós possamos sentir que apenas nós dois enchemos aquela plateia mesmo
estando no palco. A confusão de sentimentos toma total espaço dentro de nós e
sei que estamos à beira da plena felicidade, ainda que na corda bamba, nós
estamos chegando ao outro lado, o lado que juntos queremos encontrar.
Fitas e cordas
pendem do teto enquanto dançamos uma coreografia inventada às escuras, mas que
segue uma sintonia perfeita, conseguindo encaixar e afastar nossos corpos como
se nos pertencêssemos e deixássemos de nos pertencer simultaneamente. Eu tento
fugir dessa dança, porque sei que talvez me deixe levar demais, porque sei que
ainda não está na hora de outra dança nem de outra música, mas o que eu sinto
quanto me tomas em teus braços é a mais pura redenção. Fico prestes a gritar
que não me largues nunca mais, que dance comigo até nossos pés cansarem, até
não aguentarmos mais e ainda assim sentir a vontade que lateja dentro de nossas
almas, de continuar dançando. Eu amo a forma como me envolves, gosto de como
meu corpo se une ao teu numa espontaneidade jamais encarada por mim, gosto de
como as fitas passam por nossos rostos, gosto de saber que estamos sós e ao
mesmo tempo enrubescer por sentir que poderíamos estar sendo observados.
Estou me
entregando muito rápido a essa dança, mas isso só acontece pela facilidade de
sua coreografia a qual outrora eu desconhecia por completo e que por incrível
que pareça só passei a conhecer quando chegaste sorrateiramente neste palco,
onde me encontrava só e vazia.
Corro, subo
na escada lateral e dependurando-me numa das fitas, espero que venhas se
juntar a mim. Percebo que estás indo ao extremo oposto e o medo já encontra seu
lugar, mas é nessa hora que te vejo subindo as escadas e com o auxílio de uma
das cordas vens ao meu encontro. E a forma como vieste foi tão natural que
comecei a pensar numa aceitação, em alguma brecha na regra de que eu não podia
me entregar outra vez. Teu sorriso fora tão meigo e arrebatador, que quase ia
deixar-me cair daquela altura. Teus olhos estavam tão resplandecentes que eu
consegui me enxergar neles e perceber minha face desconcertada e apaixonada,
mas não me importei e continuei a sorrir o sorriso mais convidativo possível.
Finalmente
tu tinhas chegado até mim, estava agora se sustentando na fita ao meu lado, a qual
tinha uma cor verde-escura. Medi mentalmente e constatei sete cm de distância
entre nós. Apenas sete cm, eram tudo o que nos separava. Eu não poderia
beijá-lo, não podia ir agora, não podia... Então me soltei da fita e caí na
cama elástica que havia no palco. Fiquei lá deitada, atônita com tudo o que se
passava na minha mente e o sentindo fitar-me. Ele chegou mais perto do meu
rosto e logo ficou sobre mim, apenas me olhando profundamente. E no momento em
que fechei os olhos, senti seus lábios nos meus, senti o quão quente era aquele
beijo, senti aquela paixão fervilhar por todo o meu corpo e senti a felicidade
que andava procurando, todavia, senti uma felicidade exclusiva, não
compartilhada, como tudo o que estava acontecendo naquele palco. Foi então que
lapsos de memória surgiram e a revelação que se seguiu fora tão desnecessária,
que senti o teto cair.
Percebi que
estávamos com roupas de Ballet, percebi que as fitas e cordas eram necessárias,
pois aquilo que se passava era um número, uma peça, um ensaio cuja apresentação
fora intitulada Número 6. Não, não a ordem de apresentar-se, era o nome dela
mesmo. Mas como poderia ser Ballet? Nossos passos, a coreografia, eram tão,
tão... Naturais. E por diversas vezes nossos olhares se encontravam e eu podia
sentir que tínhamos trocado de corpo. Só que de uma coisa eu tinha certeza: a
queda e o beijo não faziam parte, não faziam, não podiam fazer. Como aquilo
tudo poderia ser uma farsa? Eu não suportava o número seis em si e talvez o
azar daquilo tudo fosse este número incabível à minha vida. Entretanto, depois
do que aconteceu, passei a jurar que aquele seis seria uma exceção, a única
exceção, a única. Não aguentei mais permanecer ali, levantei-me e corri em
direção à saída. E quando olhei para trás, estava ele parado sem fazer nenhum
esforço pra me seguir enquanto as luzes do palco iam se apagando aos poucos, as
cores iam perdendo seu brilho e onde tudo fora tão iluminado e colorido, agora
jazia o negro. Lágrimas percorriam meu rosto e eu ainda não havia saído, notei
que estava fazendo barulho num lugar onde antes reinava o silêncio e acabei por
perceber que era o meu choro. Olhei uma última vez com esperanças de que ele
estivesse em minhas costas pronto para ceder a outro beijo, mas o que encontrei
foi seu corpo ainda de pé, a cabeça baixa e um misto de decepção e
arrependimento brotando das suas células, fazendo tudo parecer ainda mais
escuro. Abri a porta e fui... Sem saber como acabaria aquela dança, sem saber
como acabaria aquela exceção.
Seja uma bailarina das nuvens. Aventura-te nas estrelas, onde não há limites. Tua luz brilhará mais do que em palcos e nenhuma fita te deterá. Brilha e seja vista. Acompanha as estrelas.
ResponderExcluirNão te deixes ser detida. Não detenha-te.
Um show poder ter acabado, mas com certeza um verdaderio ocorrerá.
Liberta-te das fitas.