Resmorcídio
Madrugada. Tomo uma decisão e ajo. Caminhar nas ruas desertas do meu bairro seria conveniente. Fecho as janelas da sala, tranco as portas e saio. Encontro o que eu esperava: o bairro totalmente deserto. Interessante mesmo é o fato de eu estar buscando perigo, buscando adrenalina, buscando algo que fuja da normalidade, dessa minha triste normalidade. Eu quero o perigo, eu quase o respiro, mesmo vendo as ruas desertas, sei dos riscos aos quais estou submetido. Nunca soube dizer categoricamente se sou um anjo ou um demônio. Por que surgiu essa afirmação agora? Ora, pois, estou buscando a morte, farejando, sentindo-o a dentro da minha alma. Anjos de morte são demônios, certo? Mas minha aparência e gestos provam o contrário. Transpiro o que poderíamos chamar de “angelicadeza”, então por isso afirmei não saber minha definição.
Até fico balançado pela ideia de voltar ao meu ‘lar, doce, lar’, embora a morbidez que vive dentro de mim fale muito mais alto e acabo permanecendo na caminhada em busca da morte. Imagino, imagino como possa ser o rosto da morte, imagino se se parece com a máscara do assassino dos filmes de Pânico e acabo percebendo a falta de sentido dessa minha imaginação. Sorrio. A morte deve ser bela, a morte deve trajar-se esplendorosamente, deve ter os cabelos negros esvoaçantes e os olhos verdes expressivos, que me chamam para um banho inacabável neste mar calmo, conveniente e indecifrável.
Mergulho em pensamentos; lembro-me de casos vividos, dias perdidos, lembro até do que não vivi, lembro atos e fatos que não convém serem lembrados, ainda assim, lembro.
Tiro um chiclete do bolso e noto que talvez seja o meu último. Vou masca-lo até não haver açúcar, talvez essa minha boa recompensa da morte. Um chiclete. Masco pouco, desisto do que antes parecia uma obstinação e jogo o chiclete fora. O barulho dos meus dentes batendo uns nos outros me incomodava, então desisto e opto pelo silêncio.
Meu celular toca, é minha mãe. O que diabos ela quer a essa hora da noite? Deve ter notado que saí, é a única explicação. Ignoro a ligação e desligo o aparelho. Noto agora que vim com a mochila, mas não sei o que tem dentro. Por hábito, pus nas costas e vim. Sento no meio-fio e abro para ver o que é que tem dentro dela. Três livros: O Príncipe, de Maquiavel; Crime e Castigo, de Dostoiévski e A Paixão Segundo G.H., de Clarice Lispector. Uma garrafa com água, torrões e uma adaga, que sempre levei na mochila. Percebo que alguém vem em minha direção, deve ser alguém querendo assaltar o que nem tenho, mas não vou ceder facilmente, pois não quero morrer por um vagabundo qualquer de uma forma qualquer. Lutaremos e quem vencerá a batalha, terá em mãos a vida do outro. Ele se aproxima me mostrando uma pistola e age como se fosse o primeiro assalto. Ele está nervoso, sinto o cheiro e preparo a adaga. Peço que fique calmo, levanto apenas uma mão e avanço rapidamente em sua direção tomando a pistola, jogando-a longe e desferindo uma facada no seu peito. Escuto a mais bela canção do seu último suspiro, deixo a faca dentro de si até ter certeza e quando tiro olho bem para o sangue e penso que poderia ser o meu. Tiro a jaqueta, enrolo a adaga e jogo na bolsa. Não preciso me livrar do adaga, da jaqueta e do sangue. Morrerei.
Continuo caminhando e percebo a contradição dos fatos: era para eu morrer, quem está em busca na morte sou eu, mesmo que eu não aceite uma morte fútil, mesmo assim. Mas eu que matei, eu matei uma pessoa e essa é a contradição.
Talvez as pessoas se perguntem por que não me mato logo, por que não acabo logo com essa caminhada infrutífera até a morte. Mas não posso, não posso me matar. Mesmo buscando a morte, eu me amo demais para que depois da morte, eu posso me perdoar por tê-la buscado, embora isso não queira dizer que eu tenha me matado. Como poderei me perdoar se eu mesmo me matar? É ilógico.
Eu preciso pensar parado, preciso sentar, preciso. Vejo uma casa abandonada, parecida com aquelas de filme de terror, só que minha história é uma espécie de cômico-drama, então não me preocupo em entrar. Fico na varanda observando a lua. Hoje ela está cheia, cheia a tal ponto que imagino sua explosão. Fecho os olhos, tentando me entregar, tentando ceder à tentação, mas não posso, não sou forte o suficiente.
Então avisto, avisto a morte vindo em minha direção. Ela é bela, como eu imaginava, só que seus olhos são vermelhos, não que eu não queira me jogar num poço vermelho, talvez um poço vermelho de sangue. Ela usa magia e ilumina os lugares por onde passa até chegar a mim. Ela não diz nada, ela é um silêncio quase pecaminoso, ela apenas sopra na minha boca e eu sufoco. Ela está me levando e eu sinto o oxigênio fugindo do meu cérebro, mas eu observo que o que me foge não é a vida, o que foge é o nada significativo que fiz dela. Ela, a bela morte, não está me matando propriamente, ela está me ressurgindo, me ressuscitando, está me dando o que eu nunca tive em vida, está obstruindo os canais de dor e é como se eu estivesse encontrando o significado da vida agora, é como se todo o propósito da minha vida fosse esse dia. É como se tudo o que eu não fiz, estivesse pronto, estivesse num lugar que agora ficará acessível a mim. Não acabou, claro que não acabou, começou agora.
Do escuro, veio o claro, do horror, veio a beleza, do negro, veio o branco e da vida, veio a morte.
Taí um pocket-romance que eu gostei de ler, mas altamente perigoso para potenciais suicidas. ;)
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