Num Lugar Desconhecido

Era um lugar sombrio, com pessoas sombrias e insensíveis, me sentia uma estranha num mudo cultuado por anomalias psicológicas. Anomalias, sim, pois não creio que o sarcasmo, rebeldia e sadismo sejam algo normal.

Fugir não era opção, não haviam saídas. Eu nem ao menos lembrava-me como tinha chegado ali, porque estava ali, muito menos se alguém tinha levado-me até ali. Sentia um misto de sensações, sentia medo, insegurança e achei que talvez pudesse perder a cabeça como eles, senti-me estranha ao constatar que estava sem nenhum documento, minha bolsa tinha sido levada. Pensei: "Cheguei aqui sem nada ou assaltaram-me?", era impossível obter resposta, eu não lembrava-me de nada.

Andei por um lugar desconhecido, as pessoas me olhavam estranhamente, o que era considerado normal, visto que eu era uma forasteira. A forma como elas me olhavam é que me intrigava...
Percebi que de tanto andar, acabei entrando numa floresta oposta ao estado de espírito daquelas pessoas, não havia semelhança alguma com os que ali habitavam, era um mundo à parte. Levo a crer que encontrei mais paz ali naquele lugar, do que quando estava na presença de seres humanos.

Estava distraída, tentando lembrar-me do último lugar em que estivera, quando alguém apareceu em minha frente, um rapaz nos seus 25 anos, com olhos negros penetrantes, cabelos desarrumados dando um toque de charme a si. Era esguio e aparentemente galanteador. Não consigo explicar o porquê do galanteador, creio que seja pelo fato de andar e pela forma como chegou até mim agindo naturalmente, diferente daquelas pessoas, ele parecia otimista, esperançoso e alegre, o que acabou me tirando um sorriso instantâneo, sem fôlego. Comecei a ater-me de já o ter conhecido, de algum lugar ele me era familiar. Mas de onde? Suas feições eram muito conhecidas por mim de uma forma inexplicável.

Depois de alguns minutos encarando aquele "desconhecido", percebi que ele era alguém do meu passado, um passado que eu não queria lembrar, percebi que ele era o alguém que tanto amei no passado, alguém que acabei descobrindo que ainda amava com a mesma intensidade de antes, mas que apenas tinha jogado isso no inconsciente, que não tinha muito acesso, joguei no vazio, no extravio morno da minha consciência e acabei me questionando como podia amar tanto uma pessoa assim. Percebi que as pessoas daquele lugar foram chegando aos poucos e me cercando como lobos cercam uma caça, no mesmo instante vi que estava caindo em uma armadilha, que ele tinha me levado ali para me magoar da mesma forma como me magoou no passado, talvez ele fosse me matar e acabar com toda a dor que eu estava sentindo por todos esses anos. Talvez aquilo estivesse acabando, e finalmente eu pudesse "viver" em paz.

Constatei que ele era igual a todos dali: sarcástico, insensível, sádico e desprovido de todo e qualquer sentimento.

Senti uma pontada no peito, senti lágrimas escorrerem pelo meu rosto, percebi o salgado na boca, depois me dei conta de que ele viera em minha direção. De tanto medo comecei a andar para trás, meus pés encontrando a borda do precipício da montanha, mostrando como tudo ali era perigoso. Não iria conseguir sentir sua pele tocando a minha novamente, então deixei que aquilo que estava dentro de mim aflorasse e me joguei, encontrando a liberdade no vácuo das ilusões presentes.

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